terça-feira, 3 de maio de 2011

Educação, espiritualidade e humanidade

Contribuições budistas para a realidade brasileira
Dr. Arthur Shaker

Casa de Dharma - Instituto de Estudos Superiores do Dharma
(Inspirado no texto
O desenvolvimento do Buddhismo no Brasil por meio da Educação”,
publicado no 1º. Seminário da Faculdade Livre Budista do Templo Zu Lai
Caderno de Artigos, Cotia, SP, 04/10/2003, pags. 59-71)


Como podemos compreender os vínculos entre Educação, espiritualidade e humanidade, abrindo perspectivas sobre a contribuição dos ensinamentos budistas para a atual realidade brasileira?

Comecemos examinando qual o coração dos ensinamentos budistas para a humanidade. Buddha disse que Ele só ensina duas coisas: a existência do sofrimento e a erradicação do sofrimento (Samyutta-Nikâya, xxii, 86). O instrumento que aqui estamos escolhendo para arrefecer o sofrimento é a Educação. O que seria uma Educação orientada por uma perspectiva budista?

Desde já, convém salientar que perspectiva budista deve ser refletida a partir de um olhar que não se enclausure num rótulo “religioso”, mas à luz de um rigor profundamente científico, passível, portanto, de ser teoricamente sustentável e verificável nos dados de experienciação na realidade.

Para refletirmos sobre o que seria a contribuição budista para humanidade em geral, e mais especificamente para a realidade educacional brasileira, temos, antes de tudo, compreender as tendências formadoras do Brasil, em uma perspectiva de sua história e de sua realidade atual. Pois se a contribuição budista para uma Educação no Brasil significa buscar arrefecer seus sofrimentos, e, ao mesmo tempo, cultivar as qualidades positivas, então devemos nos perguntar: Quais são os sofrimentos do Brasil? Quais são suas potencialidades positivas? Cada lugar e tempo têm os sofrimentos que se enraizam em causas universais conjugadas com causas específicas. O Brasil tem seus condicionantes saudáveis e não-saudáveis próprios, precisamos enxergá-los. E o que seriam os condicionantes saudáveis e não-saudáveis próprios do Brasil? O tema é muito vasto, tentarei focalizar alguns ângulos mais importantes.

Para compreendermos alguns dos sofrimentos de que padece o Brasil, convém começarmos olhando para a formação histórico-espiritual do Brasil, pois nossa realidade atual é fruto das ações (karma) do passado e do presente. Das várias linhas que constituíram este país, destaco as três grandes correntes: o mundo europeu a partir do séc. XIV-XV; as correntes africanas que para aqui foram trazidas através principalmente da escravidão; e a presença milenar das tradições indígenas. A partir dos finais do séc.XIX/início do séc.XX, uma variedade de migrantes veio participar da formação brasileira, dando-lhe este caráter de país multiétnico. Mas vamos nos concentrar inicialmente nas três grandes correntes, procurando entender suas principais tendências.

É sabido que a chegada do mundo europeu nestas terras das Américas, assim como também na África e Ásia, a partir do séc.XV-XVI, teve como objetivo maior a expansão de uma forma de produção conhecida como mercantilismo, que após certo tempo de acumulação de riquezas provindas das colônias, permitiria a emergência do industrialismo, cujas formas mais complexas vemos em nossos dias de globalização, tecnologias e consumismo. A colonização do Brasil faz parte desse panorama. Este novo modo de vida da Europa pós-medieval foi sendo construído em cima da progressiva destruição do seu antigo modo de vida feudal, antes voltado para a vida dos feudos, com suas aristocracias e servos, sua produção principalmente agrícola e artesanal, sendo todo seu edifício social orientado pelos valores da tradição cristã, com suas igrejas e monastérios. Neste processo de mudança, era preciso novas terras e novas riquezas.

Se olharmos do ponto de vista do Dhamma, podemos aí ver atuando o que Buddha chama de tanhã, a avidez, a ganância, o desejo da mente possessiva. Para que esta sede pudesse se expandir, era preciso conquistar as terras do além-mar europeu. Abre-se com isto uma nova e difícil fase da humanidade, em que uma visão materialista do mundo irá buscar se impor sobre todos os povos. Não é que esta sede material fosse algo novo, está dentro da mente desde os primórdios, é um dos aspectos da natureza do samsara, mas ainda não tinha alcançado este grau de imposição a ponto de se tornar a grande lei a partir de então, rompendo fronteiras e abalando as culturas humanas tradicionais das Américas, África e Ásia. Olhando a história da colonização, podemos ver o quanto de sofrimento foi criado, gerando uma herança kármica nociva, cujos efeitos sentimos até hoje.

Nesse processo de colonização, voltando nosso foco para o Brasil em específico, o que vemos? Ocupação e extermínio de muitos povos indígenas (calcula-se que havia de 5 a 10 milhões de nativos, hoje são, segundo o IBGE, por volta de 750 mil), importação de africanos que vieram escravizados para o duro trabalho nas grandes plantações de açúcar, expedições sedentas de ouro e pedras preciosas, toda riqueza dirigida às metrópoles, muitas guerras e lutas por independência, república ... até chegarmos aos nossos dias, em um quadro mundial de globalização e grandes desafios. Criou-se essa tendência de ver o Brasil como uma terra de lucros fáceis, a qualquer custo, alheia ao sofrimento dos outros. E o Cristianismo, que papel desempenhou?

Se de um lado muito da cultura saudável européia foi para cá trazida graças ao patrimônio cultural e espiritual que o Cristianismo europeu desenvolvera desde há muitos séculos, e isto constitui um bom karma, por outro lado este patrimônio foi difundido às custas de forte imposição sobre os escravos africanos e os povos indígenas que aqui viviam. Em meu livro Buddhismo e Christianismo (Shaker, 1999, p.76) procuro chamar atenção para um aspecto que alguns poucos estudiosos apontaram, o de que a expansão do Ocidente pós-medieval teve uma forte tendência de dessacralização do mundo, no sentido de obscurecer as leis espirituais, tornando o desejo material uma força devastadora. O Cristianismo, que tem um de seus maiores princípios no “amar ao próximo como a si mesmo”, na vida da modéstia, generosidade e compaixão, parece ter se esquecido disso durante toda a colonização, pois caso contrário, como entender a brutalidade dos colonizadores que se diziam cristãos? O Dharma do Christo foi envolvido em uma prática ambígua, com muitas contradições. A prática dos colonizadores, que se diziam cristãos, de cristã tinha pouco, e trouxe fortes sofrimentos inclusive aos próprios cristãos, até hoje.

Como instrutor de meditação da Casa de Dharma, tenho procurado lidar com essa questão, pois muitos dos que vêm até nós chegam com confusões e sofrimentos em suas mentes como conseqüência dessa herança psíquica mal elaborada. E assim, decepcionados com essa experiência anterior, buscam no Budismo uma nova alternativa espiritual, o que em si tem um aspecto saudável, mas que se não for bem entendido pode mantê-los estagnados num ponto em que não serão nem budistas nem cristãos, pois cada uma dessas tradições tem sua forma própria de encaminhamento para a realização espiritual.

Penso que se o Budismo quer lidar com essa situação com profundidade, e não simplesmente buscar se aproveitar dessa confusão mental a favor de uma expansão de seus participantes, precisamos compreender melhor essa tendência espiritual conflitante que envolveu o Cristianismo durante esses cinco séculos da formação do Brasil, e trabalhar com isso de forma correta, pelo bem da Verdade e da libertação humana, abrindo os horizontes para uma mente sem avidez nem ignorância. Lembro que o Budismo nunca precisou da força para se expandir, e nunca o fez pelo proselitismo tirando praticantes de outras tradições, mas sempre pelo caminho ensinado pelo Buddha, do “venha e veja”.

Podemos usar a sabedoria do Dharma não para julgar ou criticar, mas para ajudar os cristãos a verem que os ensinamentos de Buddha e Christo têm afinidades profundas, em suas verdades sobre o amor, a compaixão e a natureza passageira e ilusória deste mundo samsárico. Tanto budistas como cristãos, e podemos estender isto a todas as tradições espirituais legítimas, devemos colocar em prática esses ensinamentos, e agirmos em nosso corpo, fala, e mente afinados com a perspectiva de nos tornarmos verdadeiramente humanos, educando a nossa mente a ver no dia-a-dia as tendências nocivas da cobiça, ódio e ignorância nos tempos atuais: a sede pela riqueza conseguida sobre o sofrimento dos outros, a ganância pelo poder que pisa sobre os mais fracos, a conivência com a corrupção, a indiferença pela dificuldade dos outros, a violência física e mental, as drogas, as falhas na educação escolar que em nenhum momento mostra aos estudantes o caráter impermanente e insatisfatório dessa vida samsárica, como se o futuro e a vida fôssem apenas um grande supermercado de coisas prazerosas sem fim, esta fantasia criada pelo consumismo de que a felicidade e o progresso são sinônimos de riqueza material, e que o conhecimento se restringe apenas a dominar técnicas para produzir mais coisas.

Tecnologias e produtos são úteis para diminuir nosso desconforto diante da dureza da vida, mas desde que usadas para apoiar nossa prática espiritual, e não para tentar nos iludir sobre a verdade da impermanência e insatisfatoriedade que Buddha ensinou sobre o mundo condicionado samsárico. Não significa que devamos cair no outro extremo, o de querer que o Brasil deva ser sempre um país materialmente pobre, e que a pobreza material seria sinônimo de espiritualidade. É claro que riqueza material pode seduzir e desviar a mente do caminho da realização espiritual, mas a mortificação não conduz à libertação, como bem demonstrou o Buddha com sua experiência própria. É um grande desafio e esforço dos países do hemisfério sul o de trabalharem pelo bem estar de seus cidadãos, tarefa árdua nestes tempos de grandes poderes e ganâncias mundiais. Lembremos que o Brasil é um país de muita riqueza, porém a participação mais inclusiva das riquezas para o bem de todos é sempre um dos grandes desafios. A eqüanimidade ensinada pelo Buddha deve fazer parte da direção educacional para o arrefecimento do sofrimento deste país.

Compreendendo os karmas, podemos transformá-los. A segunda grande corrente a ser compreendida são as tradições africanas que vieram ao Brasil no período da escravidão. Os documentos e arquivos sobre o tráfico dos escravos foram queimados, e sendo proibida nos recenseamentos oficiais a discriminação segundo a cor da pele, é difícil se ter dados exatos sobre o número da população de ascendência africana no Brasil, mas calcula-se a grosso modo que 35% a 40% da população brasileira são de origem africana (Elbein dos Santos, 1977, p.27. A autora se baseou em pesquisas de 1967, do Gabinete de Estudos Regionais e de Geomorfologia da Universidade da Bahia).

Duas grandes linhas africanas constituíram a presença africana no Brasil. No período da conquista e desbravamento do Brasil, temos os Bantu, do Congo e Angola, espalhados em pequenos grupos nas plantações e nos centros litorâneos do Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais e São Paulo, em uma época de comunicações difíceis. A partir da segunda metade do séc. XVIII, quando o comércio escravista se deslocou parcialmente para o golfo do Benin, temos a presença sudanesa, com os Jeje do Daomé, os Hausa e os Nagô (Yorubá). Concentraram-se nas zonas urbanas em pleno apogeu, como Salvador e Recife. Tinham contato permanente com suas terras de origem, pelo comércio intenso entre a Bahia e a Costa (Elbein dos Santos, 1977, p.31).

Cada uma dessas correntes africanas trouxe sua cultura e sua religião. Também é sabido que suas tradições foram fortemente reprimidas, obrigando-as a se esconderem sob o panteão dos santos católicos para que pudessem sobreviver. Existe até os dias de hoje ainda preconceitos raciais, embora muitas leis têm sido promulgadas para combater as discriminações raciais. Também ainda há um grande desconhecimento das formas tradicionais religiosas das culturas africanas no Brasil. Por outro lado, a resistência dessas tradições se estende até hoje em muitos campos, não só o da sua espiritualidade, mas também em outras áreas culturais em que marcaram a formação brasileira, por exemplo, com suas artes como a música, a dança, a culinária. Penso que é um grande desafio aos budistas examinar como poderiam se relacionar de forma correta com essas tradições.

A primeira exigência seria conhecê-las, a partir da sua própria perspectiva. Deveríamos também levar em conta a experiência da presença do Budismo atualmente em países africanos, procurando-se saber como se está lidando com essa relação, de modo a evitar o equívoco anterior de tentar se impor ou ignorar essas raízes, compreendendo e buscando ao mesmo tempo um espaço próprio e um espaço para o diálogo espiritual. Observemos que nos centros budistas ainda há poucos participantes de origem negra, o que talvez decorra do fato de que o Budismo ainda seja uma via espiritual acessível apenas para as camadas intelectualizadas da população brasileira, enquanto a maioria afrodescendente ainda se vê confinada nos limites das camadas sociais mais baixas. Como lidar com isso é um desafio.

A terceira grande corrente são as tradições indígenas. Embora elas sejam numericamente menores (as populações indígenas somam hoje cerca de 600.000 habitantes), e sua influência sobre as culturas não-indígenas da realidade brasileira seja restrita, não significa que seriam por isso menos importantes. Em primeiro lugar, penso que todos temos o compromisso de apoiar o resgate da dignidade dessas culturas nativas que foram, e continuam sendo duramente atingidas pela presença de uma sociedade que desde os tempos da colonização vem trazendo grandes sofrimentos para esses povos. Há muitos anos venho como antropólogo trabalhando junto a essas culturas. Percebi, através da visão correta que o Dharma tem aberto em minha mente, que existe um Dharma das tradições indígenas. Escrevi um ensaio (acessível em meu blog), sobre A Espiritualidade indígena e os 500 anos e tantos anos da ambição moderna, na forma de uma carta dirigida aos amigos indígenas, em que procuro mostrar que a violência sobre eles faz parte de uma tendência materialista que afeta há um certo tempo todos os povos.

Procuro também abrir com eles um diálogo sobre sua espiritualidade ameaçada por esses nossos tempos, e a importância de encontrarmos formas amistosas de defender uma visão espiritual do mundo. Trabalhando com eles, venho entendendo que a sabedoria do Dharma é muito mais ampla e profunda do que muitas vezes nós mesmos, os budistas, percebemos. Lembro as palavras do Ven. Bhikkhu Bodhi, nos mostrando que o Buddha de fato não inventa um novo Dharma, mas que seu papel é o de “redescobrir o Dharma, o princípio último da verdade, e de oferecer uma herança espiritual de modo a preservar o ensinamento para as futuras gerações” (Bhikkhu Bodhi, 2003, p.7).

Penso que os budistas deveriam buscar se relacionar também com as tradições indígenas. Precisamos fazer intercâmbios com elas, sem tentar impor a visão espiritual budista sobre essas culturas, e, para isso, temos de começar pela compreensão aprofundada sobre como a espiritualidade está estruturada nas tradições indígenas, ou seja, como o Dharma se apresenta na religiosidade indígena. E, a partir daí, encontrarmos as pontes dhármicas corretas, em que sejam respeitadas as diferenças entre o caminho espiritual budista e os caminhos indígenas, ao mesmo tempo em que abrimos nossa mente para conhecer aonde estão as possíveis afinidades para além da forma dessas tradições. Lembro as palavras contidas na biografia do Ven. Mestre Hsing Yün sobre a tolerância para com as religiões arcaicas, em que afirma que “as crenças, como a aprendizagem, variam em profundidade e sofisticação. Se estiverem comprometidas com o bem, Hsing Yün acredita que devam todas ser valorizadas” (Chi-Ying, 2002, p.339).

Todo meu trabalho de pesquisa, que culminou na minha tese de doutorado, está focado nesse grande esforço: por um lado, trabalhando anos a fio junto aos velhos indígenas e seus tradutores, transcrevemos detalhadamente suas histórias dos tempos da criação do seu mundo, procurando entendê-las a partir da sua perspectiva, com seus próprios comentários e reflexões; por outro, trazendo para o diálogo e o conhecimento deles a sabedoria de outros povos milenares, indígenas, asiáticos e africanos, visando preservar na forma de um livro esse conhecimento, que sirva tanto para os “homens brancos” entenderem um pouco melhor essas culturas e com isso respeitá-las, como também para as novas gerações indígenas, pois os velhos percebem que pouco a pouco esse conhecimento antigo e rico vai se perdendo, em virtude de um certo desinteresse dos jovens indígenas, cada vez mais fascinados pela sedução do mundo moderno.

Tendo esse panorama histórico-social como pano de fundo da realidade brasileira, como a perspectiva budista poderia contribui para o campo da Educação, que não necessariamente tenha de passar por um estereótipo de uma “intromissão proselitista religiosa no domínio da Educação laica”?

A pergunta que precede essa reflexão seria: o que entendemos por Educação? Se olharmos a raiz latina da palavra educar, veremos que provém do prefixo e (“para fora”) e ducere (“conduzir”). Educar significa trazer para fora, para a luz, algo latente. Também tem o sentido de “erguer, levantar”. Algo análogo ao conceito grego de Paidéia, proveniente da raiz pais, paidós, “menino, filho”: educar seria “domesticar, domar, ensinar”, como um pai que toma a mente como seu filho, e o ensina a lapidá-la. E o quê nós humanos temos latente, que caberia à Educação expressar e lapidar?

A compreensão das Verdades sobre a condição humana (o Dhamma na língua páli, Dharma na língua sânscrita) realizadas pelo Buddha é aqui fundamental para investigarmos como delas decorrem orientações para uma prática da Educação. Para isso, destaco, por ora, das três jóias budistas, o Dhamma, termo de difícil tradução. Provém da raiz sânscrita dhri, que significa “carregar, suportar, sustentar, manter” (Guénon, 1979, p.70). Ou seja, é a Constituição (ou Natureza de algo), a Norma, Lei (jus), Doutrina, Justiça, Retidão, Qualidade, Coisa, Objeto da Mente, Fenômeno (...) O Dhamma, como a lei liberadora descoberta e proclamada pelo Buddha, está posta nas Quatro Nobres Verdades (Nyanatiloka, 1987, p.47). Quais são elas?

A Nobre Verdade sobre a insatisfatoriedade e sofrimento da existência condicionada, a Nobre Verdade sobre a causa do sofrimento, a Nobre Verdade sobre a cessação do sofrimento e a Nobre Verdade sobre o método de superação do sofrimento. Segundo o monge budista Buddhadasa Bhikkhu, o Dhamma é “o segredo da natureza que precisa ser entendido de modo a desenvolvermos a vida em seu mais elevado benefício possível” (Buddhadasa, 1988, p.3). O Dhamma da vida tem quatro sentidos: a natureza em si; a lei da natureza; o dever que deve ser cumprido de acordo com aquela lei da natureza e os frutos ou benefícios que decorrem do cumprimento daquele dever (Buddhadasa, 1988, p.4).

Os Buddhas nascem no estado humano, e nos ensinam que o nascimento nesse estado é raro e importantíssimo, porque é exatamente nesse estado humano que podemos compreender com total clareza as Quatro Nobres Verdades sobre os extremos igualmente ilusórios do sofrimento e do prazer. É essa compreensão que nos permite libertarmos do samsara (ciclos de renascimentos) e realizarmos o estado da mente totalmente livre, incondicionada, Nibbana (Nirvana, em sânscrito). Já os devas (seres celestiais) estão presos na embriaguez dos prazeres celestes conquistados por seus méritos anteriores, mas impermanentes, e os seres infernais estão presos a um grande sofrimento para cuja libertação devem renascer no estado humano. Esta centralidade do estado humano no samsara é exatamente o significado profundo do que seja a humanidade, nossa humanidade.

Todo meu trabalho na Antropologia é explicitar exatamente essa significação da condição humana. Em meu livro A travessia buddhista da vida e da morte, proponho alguns fundamentos para uma Introdução a uma Antropologia Espiritual. Através de uma ampla pesquisa sobre as doutrinas de muitos povos da humanidade, procuro mostrar que em todas está presente essa visão da centralidade do estado humano no mundo. Esquecer ou ignorar isto, e ainda há muita ignorância sobre isto em nossos cursos universitários, é lançar a humanidade e toda a Natureza no caos, transformando o homem em uma espécie de animal consumidor de uma fome que não tem fim. E como o homem tem forte poder sobre a Natureza, o que assistimos nessa expansão desenfreada dos desejos dos sentidos é uma crise ecológica que ameaça o planeta e todos os seres.

Em virtude do lugar importante que nosso estado humano tem nesse mundo, temos grande responsabilidade e deveres para com a preservação não só da nossa espécie como também de todos os outros seres. Compreender e assumir esse Dhamma significa educar-se continuamente, e educar é trazer para fora e lapidar o que temos latente. Mas estas potencialidades têm duas faces opostas:

De um lado, nossas tendências dhármicas virtuosas como a capacidade de conhecer as verdades, desde as relativas até a Verdade Última nirvânica, incluindo nossas qualidades inatas para o desenvolvimento dos quatro estados sublimes (brahma-vihara) incentivados pelo Buddha: a amizade amorosa (metta), a compaixão (karuna), a alegria simpatética (altruísta) para com a realização dos outros (mudita) e a eqüanimidade (upekkha).

De outro lado, temos nossas tendências adhármicas, as heranças kármicas negativas, as impurezas da ganância, do ódio e da delusão, todas elas frutos da nossa ignorância sobre o que seja o samsara. Esse é o duplo sentido da palavra maya: arte e ilusão. Como seres humanos, temos a capacidade de construir com arte nosso caminho da sabedoria (pañña) que nos conduz à libertação, ou nos enroscarmos nas teias da ilusão samsárica. Desenvolver uma perspectiva de Educação apoiada em uma construção budista significa conhecer, por um lado onde estão os sofrimentos tanto sociais quanto aqueles que estão dentro de nossas mentes, procurando trabalhar para nos livrarmos deles através de práticas curativas, e, por outro, cultivarmos nossas qualidades virtuosas e saudáveis.

Um dos instrumentos importantes desse processo curativo-preventivo-educativo é a prática de meditação, para o desenvolvimento da concentração, plena atenção e sabedoria, que permitem monitorar e trabalhar sobre nossas tendências não-saudáveis. Uma série de pesquisas científicas atuais na área médica e psicológica, interligadas às chamadas Neurociências, tem evidenciado as transformações e benefícios da meditação para a saúde mental e corporal.

A Educação, nessa perspectiva, aponta para um significado mais profundo da existência, no qual os seres humanos têm a valiosa oportunidade de transcender seu sofrimento e aprisionamento, indo para uma realização da Plenitude. Se perdermos essa dimensão maior, nos tornamos prisioneiros de um domínio puramente contingente e transitório da realidade, e com isso a cobiça e suas conseqüências dolorosas, como o ódio, o egoísmo, as disputas, a ansiedade, a depressão, a destruição da solidariedade e da ecologia dominam a mente humana. Quando perdemos essa perspectiva oceânica da realidade, e, portanto, da própria natureza mais profunda de nossa mente, e nos reduzimos a uma visão de peixinhos presos num aquário fechado, a vida se reduz a uma guerra pela sobrevivência, contra tudo e contra todos.

E examinando de modo mais cuidadoso, veremos que lamentavelmente a história de construção das ciências modernas se fez a partir de uma redução dessa amplidão do Real, criando uma exagerada separação entre o que se chamou de “ciência” e “religião”. É como se fosse atribuído ao pensamento “científico” o lugar da verdade estatisticamente comprovada, ficando para a “religião” o domínio de um hipotético transcendente, não passível de ser referendado por fatos, estatísticas e provas materiais. Como se a ciência cuidasse das “verdades objetivas” e quantitativas da Terra, e a religião ficasse com as crenças “subjetivas” de um “Céu hipotético”. Entretanto, pesquisando as culturas humanas, podemos observar um outro ponto de vista muito diferente.

Independente das teorias limitantes que a mente humana possa criar sobre a vida, encontramos o testemunho daqueles que alcançaram a realização espiritual da plenitude a indicação de que nossa realidade humana faz parte de um mundo condicionado, aquilo que no Budismo se chama de sankhata, que engloba todos os fenômenos da existência, ou seja, o samsara. Mas o mundo samsárico não tem fundamento em si mesmo, ou seja, não existe de modo autônomo, auto-suficiente. O mundo condicionado só ganha significado quando visto à luz do Incondicionado, o Nirvana, o suprafenomênico, asankhata.

Trata-se, portanto, de uma visão da Realidade como uma Totalidade, e isto é a base do que deveria ser um conhecimento científico verdadeiro. Mas, independentemente do fato de aceitarmos ou não sobre a verdade do transcendente, o fato é que mesmo se circunscrevermos nosso campo de entendimento de nossa realidade a esta única vida, esta poderá ser vivida com maior qualidade de relaxamento, afetuosidade e serenidade quando aprendemos a treinar a nossa mente no cultivo de nossas qualidades virtuosas e saudáveis e superação de nossas tendências não-saudáveis, monitorando nossos estados corporais e mentais através da prática da Meditação da Plena Atenção (mindfulness), da ética e da sabedoria.

É nessa perspectiva que a Educação profunda atuaria, pois é a ignorância sobre a natureza da realidade condicionada, na qual nós humanos estamos presos, que constitui a raiz de todos os sofrimentos. Educar-se é trabalhar metodicamente, unificando a educação formal e não-formal, sobre essa ignorância arraigada na mente humana, libertando-a em suas tendências saudáveis, para seu sonho de plenitude. A liberdade das águias.

Bibliografia

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_______ O lugar do Homem nas doutrinas tradicionais, p. 37-48, Revista UNICLAR, ano IX, no. 1. SP: Faculdades Integradas Claretianas, nov. 2007.
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STODDART, William. Outline of Buddhism. Oakton, The Foundation for Traditional Studies, 1998.
USARSKI, Frank (Org.). O Budismo no Brasil. São Paulo, Editora Lorosae, 2002.











sábado, 9 de abril de 2011

Os Meninos e Meninas,
seus  Caminhos de Sonhos , e  Rebeldias

Pambhu Ghanda, e sua mochila, pelos interiores



Veja em  Travessia do Samsara

domingo, 13 de março de 2011

a Espiritualidade indígena
e os 500 e tantos anos da ambição moderna

Carta aos amigos indígenas

Arthur Shaker


Amigos. Os povos indígenas têm enfrentado muitos sofrimentos desde os últimos quinhentos e tantos anos da ambição moderna. Forças escuras vieram se movimentando pelo mundo já faz um bom tempo, trazendo muita dificuldade para os povos tradicionais de toda parte do mundo. Talvez ainda haja um tempo difícil. O que são essas forças escuras e como lidar com elas?

Foi a ambição que chegou aqui nas Américas, e na África e na Ásia há quinhentos e tantos anos atrás. A ambição é uma doença que queima dentro da mente dos homens desde os tempos mais antigos. De onde vem a ambição? O ser humano tem dentro dele o fogo,como que uma energia espiritual, que nos liga  ao Invisível. Esta energia pode conduzir nosso caminho espiritual ou ser o fogo da cobiça. Mas quando não entendemos corretamente o que é esse fogo e como dominá-lo, esse fogo vira ambição que engana e destrói. É isso que acontece com o mundo moderno.

Esse fogo é sabedoria e poder, luz e calor. Os Mbyá-Guarani ensinam que Ñamandu Ru Ete, quando criava o mundo, disse a Karai Ru Ete, o dono do fogo, para colocar pelo alto da cabeça dos humanos o fogo sagrado, tataendy, para trazer a força. Mas para esse fogo não criar um calor muito grande e perigoso, Ñamandu disse a Tupã Ru Ete, o senhor das águas e do trovão, para colocar no coração dos humanos a temperança, a moderação, yvára ñemboro’y.

Dominando esse fogo, os xamãs conseguem viajar e sonhar com outros mundos, mais profundos. Mas, conhecer e controlar esse fogo é difícil, precisa de muito esforço e orientação correta. Um povo tradicional tem os poderes para isso. Quando falamos tradicional, Tradição, alguns pensadores modernos ficam agitados, não querem entender. Pensam que é coisa atrasada, ultrapassada, contra o progresso. Mas não é isso. Os povos tradicionais são os que têm como fundamento e direção as verdades profundas que os seus criadores espirituais trouxeram do magnífico mundo do Transcendente, ou daqueles que alcançaram a Iluminação, como o Buddha. Isto é uma Tradição espiritual.

 
Alguns pensadores modernos dizem que os povos indígenas são muito diferentes um do outro, por isso não é possível falar em “povos tradicionais”, pois um não tem nada em comum com o outro. E não tendo nada em comum, não seria possível reunir os povos indígenas. É verdade que há muitas diferenças entre os povos indígenas, e essas diferenças são importantes e devem ser respeitadas. Os Sioux da América do Norte são diferentes dos índios Maya da Guatemala, os Xavante do Brasil são diferentes dos Aymara do Peru, são muitos os povos indígenas, com línguas e tradições diferentes. Mas todos falam que a origem do seu povo, e dos animais e plantas, é um princípio espiritual profundo.


Estou usando palavras para falar desse mundo espiritual, palavras como espírito, espiritual, espiritualidade. Não são nomes das línguas indígenas, e por isso não traduzem corretamente o pensamento indígena, e por isso devem ser consideradas com cuidado. Mas servem para nosso início de diálogo.

É verdade que cada povo indígena tem seu jeito de viver e se comunicar com o mundo dos espíritos. Mas aí está também uma verdade que é a base de todos os povos indígenas: todos falam que seus criadores tinham um grande poder espiritual, que todos os seres sencientes têm consciência, todos falam que este mundo está ligado ao Invisível. Os povos indígenas são diferentes, mas todos vieram do Invisível. É como o arco-íris no céu: são muitas cores, mas todas vêm da Luz branca, que passando pelas águas das nuvens, se abre em muitas cores. Será que o Invisível não é o Grande Mistério da origem de todos os povos e animais e plantas e seres de um vasto reino cosmológico?

Tudo que é vivo tem dentro dele esse fogo do Invisível. É esse fogo que faz tudo nascer, crescer e ficar alegre e dançar contente. Muitas tradições espirituais têm presente seus seres de poderes como criadorres do seu mundo. E  que quando os seres de poder criaram o mundo, eles ensinaram para seu povo as leis de viver de um jeito que esse fogo não queimasse tudo. São as leis da Tradição, para defender os humanos, as árvores e animais e conversar com os os vários reinos espirituais. Nas tradições antigas da Índia (o Hinduismo e Budismo), essa Lei que sustenta e está presente em tudo, chamamos de Dharma (Dhamma). Na tradição hindu também está presente seus seres criadores. Na tradição ensinada pelo Buddha, entretanto, não há essa mesma concepção  de um deus criador, ou de uma alma ou espírito eterno. Não queremos ignorar que há semelhanças, mas também algumas diferenças entre as cosmologias das tradições espirituais e métodos diferentes para alcançar a realização espiritual. Mas também vemos que há uma noção aproximativa importante, a verdade da Realidade Última e Plena. E para realizá=la, devemos compreender e viver segundo as leis espirituais próprias de cada tradição espiritual. O mundo moderno esqueceu-se dessas leis, o fogo virou ambição e tomou conta do pensamento geral, como uma jibóia de boca bem grande comendo tudo sem parar, nunca está satisfeita, até que um dia explode.

Quando falamos em mundo moderno, não estamos falando de países, raça, cor de pele, pois lutamos contra qualquer tipo de racismo e preconceito. Quando falamos em mundo moderno, estamos nos referindo a um tipo de mentalidade, a mentalidade moderna que começou cinco séculos atrás no Ocidente, e que foi se espalhando pelo mundo, e que é dominada por uma visão e uma atitude materialista, e desespiritualizada perante a vida e os povos tradicionais.

Esta ambição da civilização moderna é uma semente que já estava plantada dentro do mundo desde o seu começo. Os homens de sabedoria da Índia dizem que o mundo nasce já com todas as sementes que vão brotar. No começo o mundo é mais brilhante, brotam as sementes de mais poder e luz espiritual, o mundo estava mais perto da magnífica origem. Por isso, dizem muitos povos indígenas, nos tempos muito antigos a palavra era criadora, era só dizer e as coisas apareciam. Os Xavante contam que no tempo dos criadores todos tinham poder, mas havia alguns seres especiais, que tinham muito mais poder, eram os criadores. Podiam criar só com a vontade, pensavam e se criava os alimentos e os animais, já com os nomes.




Muitas leis começaram a ser quebradas, isso era inevitável pela própria tendência do mundo, e com isso muito desse poder espiritual foi se perdendo. O ciclo cósmico vai se des-enrolando e vão brotando mundos com menos poder e luz, cada vez se afastando mais desse poder espiritual, se materializando em velocidade crescente. Até parar, aí é o fim de um mundo. Muitas tradições já apareceram e desapareceram.

Não é que uma tradição se acabe, ela apenas volta para dentro do Grande Mistério Invisível. Não ouvi nenhum povo tradicional dizer que o mundo vai ficando mais luminoso. Não se encontra entre os povos tradicionais essa idéia do progresso e da evolução. Será que essa teoria é plenamente provada, ou é apenas uma idéia inventada pelo pensamento ocidental moderno? Para os povos tradicionais, o que encontramos é uma visão oposta. A tradição hindu, por exemplo, diz que o Cosmos caminha para baixo. O materialismo vem crescendo muito, a ambição vai tomando conta de tudo, destruindo a Natureza e os povos indígenas. Essa doença hoje já se espalhou pelo mundo inteiro.

Não foi a expansão dessa ambição que trouxe a invasão das Américas, a África e a Ásia há cinco séculos atrás? Isso não faz parte dessa tendência cósmica para baixo? Nada é por acaso. Diz a tradição hindu que estamos já há muito tempo na quarta e última etapa desse ciclo, fase chamada de Kali Yuga, a Idade Escura. Esta verdade também aparece em muitas tradições indígenas. A espiritualidade do mundo e dos homens vai se perdendo rapidamente, o tempo passa correndo cada vez mais.

Cada vez mais escuro e pesado, o mundo vai sendo puxado para baixo, como a correnteza do rio arrastando tudo. Para lutar contra essa correnteza, os povos tradicionais têm seus rituais e conhecimentos para defenderem o equilíbrio da vida na Terra e manter a comunicação com o mundo espiritual. No Budismo, ritos não são importantes, o incentivo está no caminho de purificação da mente, prtaicando o Nobre Caminho da  virtude, da concentração e da sabedoria. Isso inclui o espeito e proteção pela terra e por todos os seres vivos. Mas o que é preocupante é que talvez chegue o tempo em que não vai dar mais para proteger o mundo.

Olhando para a história do Ocidente, vemos que esses povos ocidentais também tinham suas leis espirituais no Cristianismo. Mas essas leis foram esquecidas, e os valores cristãos abandonados. Diz a história que quando um outro povo guerreiro fechou a passagem do comércio do Ocidente por terra, o comércio ficou difícil. Então os grandes comerciantes dos países ocidentais resolveram se aliar com os governantes e deram muito dinheiro para os navios procurarem caminhos pelo mar para o comércio. Começaram as grandes navegações, procurando terras e riquezas. A ambição começou a crescer.

O Cristianismo ensinava que se deveria viver uma vida de respeito e amizade com os outros, e que o pensamento deveria estar sempre no Deus. Que não se deveria ter muita ambição com as coisas materiais, mas se esforçar para seguir o exemplo do Cristo e alcançar o reino dos céus, onde tudo é bom. Mas se foi esquecendo disso. A tradição religiosa dos colonizadores começou a enfraquecer. Riqueza e lucro virou o grande desejo deles. Queriam ter bastante lucro, tomar as terras e as riquezas dos outros, só pensavam nisso. Foi virando uma febre dentro da cabeça deles.

Aquelas sementes da ambição material que estavam guardadas dentro do mundo desde os tempos antigos começaram a querer crescer como fogo na floresta. E essa mentalidade abriu as portas para essas sementes terríveis crescerem com uma força violenta. Os antigos dizem que isso iria acontecer, que iria ter de acontecer, porque as sementes escuras também estão dentro deste mundo, iam ter de brotar e crescer e se espalhar até se esgotarem. As histórias dos povos antigos contam que já aconteceram coisas parecidas em outros tempos do passado. Mas agora o perigo é muito maior e está ameaçando o equilíbrio espiritual de toda a Terra. Por isso os antigos dizem que a essa mentalidade materialista moderna é a loucura e vai destruir este mundo.

O líder espiritual indígena Davi Kopenawa, do povo Yanomami, disse certa vez que rotukala, o mundo, está cansado. Que vai chegar a hora em que o nosso mundo vai explodir. Falou que um dia se iria lembrar dessas palavras dele, porque a poluição está aumentando, está chegando na floresta, está matando as árvores, está caindo nos rios e matando os peixes. A poluição cai na cidade e vai longe porque o vento leva. Falou que os índios que estão cuidando deste planeta estão ficando doentes, e quando rotukala cair encima da gente, não vai ter para onde correr e se esconder. Essa ambição moderna é como uma cobra querendo engolindo tudo. Quando todos os xamãs morrerem, dizem muitos líderes indígenas, o mundo vai virar, vai quebrar, e ninguém vai escapar. O céu vai explodir. Vai cair e achatar a Terra. Será que a humanidade quer isso para si?

O mundo moderno gosta muito de mostrar com orgulho seus produtos industriais, fala-se muito em progresso, desenvolvimento, mas será que quem trabalha dentro de uma fábrica acha esse tipo de trabalho uma maravilha? Os povos indígenas, alguma vez aceitaram esse jeito de trabalhar?

Junto com isso, surgiu um tipo de pensamento, onde os homens, a sociedade e a Natureza não têm mais significado espiritual, é como se fosse apenas matéria, sem consciência ou mente. Muitos povos tradicionais falam que nosso mundo visível é só uma aparência, uma sombra do outro mundo magnífico e luminoso, o Invisível. Nosso mundo é como um espelho que só reflete um pouco do brilhante mundo transcendente. São muitos os mundos povoados de seres divinos, devas enfeitados, esses mundos são como camadas de luz até o Grande Mistério. Nenhum povo tradicional diz que só tem esse mundo material visível. Nosso mundo é só a superfície de um Oceano Luminoso Infinito.

Muitos pensadores da sociedade moderna dizem que esse conhecimento dos povos indígenas não é ciência, é só uma “crença”. Estuda-se muito os povos indígenas de todas as partes do mundo, mas será que se entendeu corretamente? Porque muitos pensadores chamam de “crença” a sabedoria dos povos indígenas? Será que não se está usando essa palavra “crença” para diminuir o valor do conhecimento dos povos tradicionais? Como o pensamento moderno não tem mais nenhuma ligação com o Invisível, quer-se com isso reduzir a força da sabedoria indígena, rotulando com o nome pejorativo de “crenças religiosas”. Às vezes até dizem que essas “crenças indígenas” devem ser respeitadas porque são o pensamento dos povos indígenas, mas no fundo muitos acham que o conhecimento indígena não tem a mesma força de verdade da ciência moderna. No fundo, ainda se pensa que o pensamento moderno fez um grande progresso no conhecimento, deixando para trás o conhecimento espiritual dos povos tradicionais e criando “o verdadeiro conhecimento científico”. Mas o que é um “verdadeiro conhecimento científico”?

Quando estudamos de perto, percebemos que é só no pensamento moderno que encontramos a idéia de que existe apenas esse mundo visível, e que o homem veio do macaco. O conhecimento materialista é colocado como “o científico e verdadeiro”, enquanto que o conhecimento dos povos antigos seria “crenças religiosas” e “não-científico”. Mas será isto mesmo? Ou não seriam dois tipos de ciências, onde no pensamento moderno o mundo visível não tem mais ligação com a Raiz Invisível, enquanto as ciências dos povos tradicionais, pelo contrário, estão sempre vendo este mundo ligado ao Invisível? Quer dizer que talvez o conflito não seja entre “ciência” e “crença religiosa”, mas entre dois tipos de ciência: uma que não tem espírito e outro em que tudo tem uma ligação com o Invisível, o sagrado. Não é que a ciência moderna esteja totalmente errada. Ela tem uma visão quantitativa dos fenômenos e baseado nisso ela criou a tecnologia moderna. Mas o problema é que esta visão quantitativa é só a superfície dos fenômenos, por isso ela não pode pretender ser a visão única e a mais correta dos fenômenos, pois ela não tem a qualidade e profundidade do conhecimento espiritual tradicional.

Por exemplo, o Sol. Para a ciência moderna, o Sol é apenas uma massa de gases explodindo e produzindo energia em forma de luz e calor. Mas para o povo indígena Desâna, o Sol é mais que isso. De acordo com seus relatos míticos, em seu livro Antes o Mundo não existia, o Sol é a criação de Yebá bëlo, a avó do universo, e seu bisneto, Yebá ngoaman. Com seu cetro-maracá, yéi waí ngoá, enfeitado com mahá weá iëhse (araras, muitas penas) e com abé põn mihi (sol, brincos), a ponta do bastão-maracá se transforma em um rosto humano que irradia luz. Era o Sol, sendo criado, aparecendo.

Estamos hoje vivendo uma grande crise ecológica. Muitos estão preocupados com a rápida destruição do meio ambiente. Isto é porque a civilização moderna cortou a ligação entre a Natureza e o Invisível. Tirou da Natureza sua qualidade espiritual e transformou a Natureza em um objeto de consumo, apenas uma matéria  que serve só como matéria-prima para a produção de mercadorias. Muitas medidas estão sendo pedidas para defender o meio ambiente, isto é importante, mas é preciso mostrar que a Natureza está sendo destruída por causa da grande ambição de consumo que tomou conta do mundo. Muitos querem salvar a Natureza, mas não querem diminuir seu apetite consumista. O que chamamos hoje de “crise ecológica” é também conseqüência da visão desespiritualizada do mundo moderno.

O mundo moderno virou as costas para seu objetivo e responsabilidade espiritual pelo planeta. Por isso a Terra está cansada. Por isso os xamãs dizem que quando eles acabarem, o mundo acabará, porque são eles que ainda lutam para defender o equilíbrio espiritual do mundo. Mas tudo neste mundo tem limite.

Não foi apenas da Natureza que foi tirada a espiritualidade. A mentalidade moderna também inventou uma sociedade regrada apenas pela visão materialista. A mentalidade moderna inventou uma sociedade que não é mais governada por verdades espirituais, mas por leis onde quem manda é o poder econômico. Neste modelo de sociedade ainda se trata os povos indígenas com discriminação e preconceito, forçando muitas vezes os povos indígenas a aceitarem leis que não são as leis que seus criadores espirituais ensinaram. Quando um povo indígena reclama o direito de seguir suas próprias leis, e afirma que é um povo com identidade própria, aí se vê que liberdade, igualdade e fraternidade nem sempre chega até ao direito indígena.

Será que a mentalidade moderna também não obscureceu a visão espiritual do homem? Como se o homem fosse apenas corpo e cérebro, uma barriga com muita fome e uma cabeça em que só funciona o pensamento e as sensações. Isso é o que vemos, a mentalidade do racionalismo. O racionalismo é uma forma de ver o mundo apenas como "matéria", sem a mente. O pensamento é uma qualidade humana importante, mas a razão sozinha é suficiente? A razão só trabalha corretamente quando é orientada pela sabedoria, que mora talvez não apenas no cérebro, mas no coração interior profundo.

Sem o entendimento de nossa natureza espiritual mais profunda, o fogo interior se transforma em loucura que destrói o mundo. É isso que estamos vendo. A violência sobre os povos indígenas desde há muito tempo não é apenas uma violência física e mental. É a violência contra as verdades espirituais que estão na raiz da humanidade.

Amigos indígenas:

Possam vocês continuarem com a coragem e sabedoria para proteger suas tradições, e superar as dificuldades destes tempos.

Possam todos os seres deste mundo despertar para as verdades profundas, e se orientando por elas, protegerem a si mesmas e a todos os seres, e superarem os sofrimentos do corpo e da mente, sofrimentos criados pela cobiça, pelo ódio e pela ignorância.





terça-feira, 5 de outubro de 2010

Os meninos e meninas
 
seus Caminhos de Sonhos, e Rebeldias


 Beco dos Animais





Fevereiro 2011



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Dezembro 2010




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13 e 27 Outubro  Espaço Kurma

Meditação e Saúde:
Tranquilização e Plena Atenção (Vipassana)
na superação do sofrimento nos estados mentais

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sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Os meninos e meninas
seus Caminhos de Sonhos, e Rebeldias

a jornada prossegue

a história da Inocencia




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Programação do Curso: veja em

Corpo, Mente e Saúde: Meditação Budista e Neurociências

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Os meninos e meninas
seus Caminhos de Sonhos, e Rebeldias

a jornada prossegue




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a Sabedoria do Intelecto e o caminho mítico
Arthur Shaker
Maio 2009


Revista UNICLAR, ano XI, no. 1. SP: Faculdades Integradas Claretianas, nov. 2009, p. 61-70

Resumo

Este texto apresenta uma elaboração em torno do tema do Intelecto, a partir dos paradigmas de algumas tradições, como o mundo greco-platônico, o Cristianismo, o Hinduísmo, e o Budismo. Toma como base de pesquisa as contribuições das Ciências da Religião, da Metafísica e da Teologia, bem como do conjunto das ciências humanas, nesse repensar deste tema para a existência humana contemporânea.

A partir desses fundamentos, o propósito central é recolocar o lugar do Intelecto em sua relação com a sabedoria e a razão, num contexto atual de hipertrofia do racionalismo, em detrimento da intuição e sabedoria, acarretando a perda da compreensão do caminho da realização espiritual como o caminho mítico por excelência, meta e fundamento de todas as tradições espirituais.

Palavras-chave:
Intelecto, razão, intuição
• Plena atenção, concentração, Sabedoria
• Mito, caminho mítico, realização espiritual
• Delusão, ignorância, libertação

a Sabedoria do Intelecto e o caminho mítico

Câmera, luz, ação!

Um novo dia, um novo filme, um novo capítulo da novela da vida se inicia, e já estamos correndo atrás de nossos afazeres, deveres, sonhos de realização, viver uma vida plena de satisfações.

Ação, ação, ação, na busca da felicidade. Faça, mexa-se, realize seus sonhos, viva intensamente.

Câmera, luz, ação: Realização!

Até aqui, aparentemente, nada de novo sob o sol. As religiões também têm o propósito de conduzir os seres humanos à realização. Mas vejamos. Nestas três palavras “câmera, luz, ação”, antes da ação há duas outras: câmera e luz. Porque disto? A palavra “câmera” vem como primeira, pois para que haja ação é preciso que haja um foco que dirigirá a ação. Mas há uma palavra não-dita, mas imprescindível, que é anterior ao foco da câmera de nossa novela existencial: a motivação.

Qual a motivação cuja realização preencheria nosso modelo de satisfação? Raramente os seres humanos examinam esta questão vital. Ela é fundamental porque é esta motivação que determina nossas ações, e nossas ações determinam os frutos, e os frutos determinam o senso de satisfação que nossa mente experimenta. E esta relação, entre a motivação e aquilo que a mente interpreta como satisfação, é que ao final determina a avaliação da mente sobre a realização de sua felicidade.

Aqui há um divisor das águas, que as Ciências da Religião, em conjunção com as doutrinas espirituais podem esclarecer: qual o projeto ou modelo de realização que levaria o ser humano à felicidade? Num nível superficial, a felicidade que se corre atrás tende a ser motivada, e por isso dirigida, quase sempre pelo desejo ignorante, que se ilude vendo o que é impermanente como permanente e satisfatório. Resultado: frustração, sofrimento e deslocamento da insatisfação para um novo objeto ilusório. Câmera, luz, ação!

Motivação é sinônimo de intenção, palavra que vem do latim in-tendere, ou seja, para onde tendem nossas ações? E as ações não apenas do corpo, mas da fala e do pensamento. Mas será que os seres humanos estão sendo educados para examinarem os conteúdos das motivações/intenções de suas ações do corpo, fala e pensamento? Essas intenções, que no Budismo são referidas como cetana, na maioria das vezes brotam do fundo do inconsciente da mente, sem que se dê conta deste emergir, que impulsiona as ações. Tem-se a ilusão de que se está agindo “livremente”, mas de fato, somos “agidos” por impulsos inconscientes. E o mais grave: impulsos inconscientes cujos conteúdos na maioria das vezes são as impurezas da cobiça, da aversão (dos pequenos ressentimentos aos ódios violentos) e da ignorância.

“Vigiai e orai”! Nestas duas curtas palavras, proferidas pelo Cristo como diretrizes, estão contidas verdades espirituais de vasto significado e fruto. Comecemos com o “vigiar”. Se a intenção de nossas ações é o que determina a qualidade dos frutos que experimentaremos, e se ela provém quase sempre do fundo do inconsciente, é preciso desenvolver a educação do “vigiar” a porta por onde a intenção provém. Mas quem vai fazer o papel do vigilante? Aqui entra em ação o Intelecto. Mas o que é o “intelecto”?

Certa vez um professor de Teologia cristã me pediu que elaborasse essa noção, pois tinha certa dificuldade em explicá-la aos seus alunos, em virtude do fato de que não havia conseguido encontrar na teologia católica uma definição do Intelecto. E que ele procurava definir, de modo simplificado para os alunos, que Deus ao criar o Homem, colocara seu hálito no homem. Este hálito seria a inteligência, a porção de Deus, o intelecto. E quando o homem ativa esse intelecto, nada mais é que a porção de Deus que conhece a si mesmo, a intuição intelectiva que é imediata. Ao final, me perguntava que correção eu faria a esta explicação.

Quando surge uma pergunta, ao invés de corrermos atrás da resposta (eis de novo o corre-corre impulsivo da mente), pode ser mais frutífero examinarmos, em primeiro lugar, a operação mental que está ocorrendo. É a razão querendo uma definição para aquilo que escapa de seu campo. Definir é dar um fim, é fechar, aprisionar num contorno definitivo, algo que é muito sutil: o intelecto. E o que é sutil, o que é uma qualidade eminentemente divina, não é definível. Podemos no máximo oferecer apoios, upayas, que ajudem a intuição a emergir. Por isso relaxemos a ansiedade da definição na mente.

Tomemos como apoio o símbolo da Roda, tão importante em muitas tradições, como o Hinduísmo e o Budismo.
Quem está em um ponto de um raio do círculo, vê as coisas segundo uma perspectiva; quem está em outro vê de outro ângulo. Como se diz, todo ponto de vista é uma vista, vista de um ponto. Portanto, sempre relativo, parcial e sujeito a falhas, distorções, preferências. Em outras palavras, a razão, ratio, proporção, lida com a distinção, a dualidade, a diversidade. Vê as coisas de modo fragmentado. A razão é apenas uma das faculdades mentais cognitivas. A razão opera no plano da dualidade, que busca uma síntese, que por ser parcial, reabre nova dualidade, no movimento dialético de superações. Mas pelo pensamento, nunca se chega ao conhecimento supremo, em virtude desse caráter limitado do pensamento. Retomando o sentido do “vigiar”, a reflexão sobre nossas intenções tem sua função, mas ela se dá “a partir” do que já foi desencadeado, quase que a posteriori. Há de haver um significado mais profundo, e mais eficaz, portanto, do “vigiar”.

Voltemos ao apoio do simbolismo da Roda. Quem está no Centro da Roda vê todos os raios simultaneamente, pois todos os raios têm seu fundamento nesse centro, é dele que os raios partem. O Intelecto, em seu sentido mais profundo, é essa qualidade central da Sabedoria “que tudo vê”. Enquanto a razão é uma operação cognitiva secundária, o intelecto - que aqui pode ser tomado como sinônimo de Sabedoria, intuição que capta unitivamente o que a razão compreende distintivamente - se aloja na Centralidade e capta a unidade, a síntese. No Budismo, é a Plena Atenção (sati) que é o principal fator mental para a Sabedoria (pañña). A plena atenção vigia, mas aqui vigiar não é apenas estar atento ao que surge na mente, mas desenvolver a sabedoria de investigar os conteúdos que surgem, e se forem carregados de cobiça, ódio e ignorância, erradicá-los pela compreensão e desapego. Este é o significado que une as tradições: o caminho da realização espiritual é, em última instância, o da renúncia. Mas o significado mais profundo da renúncia é o da renúncia a estas impurezas que contaminam e dirigem a mente para a ilusão. Como dizia o Cristo, se o olho engana, melhor arrancá-lo que se perder por ele.

O caminho do Conhecimento deve partir do reconhecimento daquilo que confere a nós, seres humanos, um tesouro valiosíssimo: a inteligência, o Intelecto. Mas esta verdade não é nossa, no sentido de uma qualidade criada por nós, ou da qual sejamos “donos”. O intelecto é de origem transcendente, provém do Absoluto, está em todo lugar, no Cosmos e Supra-Cosmos. Mas também podemos dizer, com a devida cautela, que a inteligência é “nossa”, se entendermos com isso que usufruímos desta qualidade, que nos diferencia das outras espécies, em virtude da plenitude de nossa possibilidade participativa na inteligência. A inteligência ou o Intelecto utiliza do foco da luz que ilumina a nossa câmera para dirigir de modo sábio nossas intenções, que por sua vez dirigem nossas ações do corpo, da fala e da mente.


Podemos utilizar as Escrituras sagradas como de grande ajuda no lapidar de nossa mente. As Tradições têm um corpo teórico vasto, ao qual os homens podem recorrer, desde que utilizado sob orientação correta, e compreendendo as diferenças de ângulos que cada Tradição tem com relação aos suportes do Caminho. Escrituras, imagens, sons, símbolos, a Natureza, nosso corpo e mente, são apoios para o trabalho do Intelecto.

Segundo a metafísica das tradições teístas, o Intelecto (Intellectus ou Nous), ou Espírito (Spiritus ou Pneuma), é o elo intermediário que liga o homem ao Transcendente, à Realidade Suprema. O Intelecto, embora “criado”, seria supraformal e universal, enquanto o mundo psíquico pertence ao domínio formal e individual. O Intelecto ou Espírito seria a “face” criada do Logos, enquanto sua “face” incriada seria o Ser. O Intelecto pertenceria ao reino “angélico”, o domínio dos arquétipos platônicos. É graças ao Intelecto que o homem pode ter o sentido do Absoluto, comunicar-se com o Divino . Poderíamos dizer que é graças ao Intelecto que o homem pode ver e purificar sua mente das impurezas da cobiça, ódio e delusão, e com isso alcançar sua realização espiritual. É através da via do conhecimento, a via efetiva que traz os frutos em si mesmo, que se alcança a definitiva libertação da delusão e do sofrimento.

Segundo a metafísica hindu, explicitado mais especificamente no Samkhya (um dos seis pontos de vista dos Veda), a existência fenomênica se desdobra em uma série de princípios (tattwas), pelos quais os vários graus da manifestação universal são compostos. O primeiro deles é Buddhi, o intelecto superior, como um raio luminoso proveniente de Sol espiritual e iluminando na sua integralidade o estado individual e o ligando aos outros estados do Ser .

Numa perspectiva não-teísta, nas palavras do monge budista Yogavacara Rahula Bhikkhu: “Buddhi, em sânscrito, significa o intelecto puro, a mente que está livre da influência condicionada das emoções, de forma que nela não se constróem observações nem deduções tendenciosas ou preconceituosas. (...) Buddha, o Desperto, foi alguém que libertou sua faculdade intelectual de todas as distorções, levando-a ao maior grau de clareza possível. A partir disso Ele conseguiu desenvolver uma atenção aguçada e um insight penetrante sobre como o corpo e a mente funcionam juntos”.

A palavra Intelecto quer dizer “inter-legere”, “ler entre”. Ler a verdade da efemeridade e ilusão dos fenômenos do corpo e da mente, por entre as distorções da percepção condicionada. Perpassá-las rumo ao Absoluto, o Incondicionado, a suprema realidade transcendente, que está sempre aqui e agora, mas ignorada, porque coberta da delusão sobre a verdadeira natureza do mundo, que oculta a presença cintilante do Absoluto. O Intelecto seria aquilo que na simbologia hindu é o terceiro olho de Shiva, o Centro do qual os dois olhos seriam como a dualidade, os pratos da balança que fazem os jogos dos pesos e contrapesos, e que caracterizam a ação da razão e do pensamento.

Nesses termos, o Intelecto é principial em relação ao pensamento. O termo “principial”, utilizado para designar a ordem dos princípios por René Guénon (cuja obra ainda é pouco conhecida no Ocidente) significa, neste contexto, que o pensamento é uma faculdade mental derivativa do Intelecto, portanto secundária e menos eficiente que seu princípio fundante, o Intelecto. Por isso, enquanto a figura do homem intelectual é vista na modernidade como sinônimo de pensador, na perspectiva espiritual o real homem intelectual é aquele cujo intelecto adentra pelos domínios da transcendência, realizando e purificando o conhecimento desses domínios (que estão dentro de si), até alcançar a Realidade Suprema, o Centro. Em outras palavras, o homem intelectual é aquele que realiza o conhecimento pela meditação, pois, para o desenvolvimento da centralidade, a meditação é a base por excelência da prática espiritual.

Mas qual a relação entre a meditação e o intelecto? Duas qualidades são necessárias: a concentração e a plena atenção, sabedoria.

A concentração traz o foco da energia mental para os objetos que surgem na mente (desejos, raivas, medos, pensamentos, distrações). As distrações são como o lodo do lago. Para que a água se mostre em sua natureza límpida, é preciso que as turbulências das águas do lago diminuam até cessar, e com isso as impurezas da água se assentem no fundo. Poderíamos talvez tomar a prática do “orai” como uma forma de concentração, de se manter a mente focada no objeto da oração, evitando que se torne cativa dos apelos dos sentidos, e o “vigiai” como a qualidade do Intelecto que sàbiamente “tudo vê” o que se passa interiormente, operando a purificação da mente. A concentração dá o poder da luz da câmera para que a sabedoria veja de forma ampliada o que está surgindo lá do fundo da mente. Mas plena atenção e concentração operam conjuntamente: não há concentração sem sabedoria, não há sabedoria sem concentração, diz um dos versos do Dhammapada, um dos ensinamentos do Buddha. Anàlogamente, “vigiar e orar” poderia, na perspectiva da tradição cristã, ser visto como práticas interdependentes e complementares de sabedoria e concentração.

Nesta ótica, não significa, entretanto, que o pensamento deva ser desconsiderado, pois isto conduziria, como tem conduzido em muitos casos na sociedade contemporânea, ao culto do infraracionalismo, sinônimo de irracionalismo, desestruturação da mente e destruição da ética. O pensamento tem o seu nível de realidade, eficácia e momento. Mas a reflexão necessitaria também de uma educação espiritual que a conduzisse ao pensamento correto. No Budismo, o pensamento correto é o segundo fator do Nobre Óctuplo Caminho, os oito treinamentos para a superação do sofrimento. Neste contexto, trata-se de cultivar o pensamento que se baseie na verdade da impermanência e da efemeridade da existência, portanto, conduzindo à compaixão e ao amor (os opostos do ódio, crueldade e frieza para com o sofrimento alheio), à generosidade (o oposto da cobiça e apego) e à renúncia (o oposto do apego à suposição equivocada de que o “eu” e “meu”, o ego, sejam realidades substanciais e eternas). “Quem quiser me seguir, renuncie a si mesmo”, ensina o Cristo.

Se compreendermos que o caminho da purificação rumo ao Absoluto é a maravilha das maravilhas, podemos afirmar que o caminho é uma experiência mítica! Com a vulgarização de nossos tempos, o termo mito foi muitas vezes traduzido como “fábula, ficção, ilusão”. Mas este não é o seu sentido verdadeiro, como bem demonstrado por estudiosos das mitologias, como Mircea Eliade, René Guénon, Joseph Campbell, e muitos outros pesquisadores. O caminho de realização espiritual é um caminho mítico. Por isso parece tão difícil ao Ocidente, dominado pelo racionalismo, afastado da compreensão e vivência do caminho mítico.

Se olharmos com mais profundidade o caminho dos fundadores das Tradições espirituais, veremos neles os passos de explicitação de um caminho mítico, em que cada passo, ato e palavra são carregados de verdades, muitas vezes na forma de símbolos que fundamentam os mitos e ritos daquela Tradição. Mas como se lê, por exemplo, o Novo Testamento? A vida de Cristo, em cada momento, é vista apenas como uma vida histórica e individual, com ensinamentos em forma de parábolas? Ou como penetração da Eternidade no tempo, em que cada passo do caminho do Cristo é o resgate da Criação para dentro da Refulgência dos arquétipos divinos?

A vida dos fundadores das Religiões é um mythos que serve de paradigma-espelho, no qual cada postulante se vê, revê e se orienta. Cada passagem da vida dos fundadores míticos é um símbolo que alimenta o intelecto em seu trilhar analógico. O caminho mítico. Como a flor de lótus, que emerge do lodo e atravessa as águas barrentas da existência samsárica, sem ser manchada por elas. Até alcançar o desabrochar, realização que se abre como pétalas da flor radiante.

Os fundadores míticos são os arquétipos do Herói, em sua realização mítica da jornada da destruição de avidya, a ignorância. Hoje em dia se cultuam heróis do automobilismo, do esporte, do cinema, que às vezes até podem relembrar em seus atos algo superior, mas os Heróis-Eros que traçam para muitos o caminho de realização espiritual, o caminho mítico, quantos os imitam?

Para onde se voltam nossas câmeras, luzes, ações?

BIBLIOGRAFIA

CAMPBELL, Joseph. A jornada do herói. São Paulo: Agora, 2003.
_________________ O Poder do Mito. São Paulo: Palas Athena, 2005.
_________________ O Herói de Mil Faces. São Paulo: Cultrix/Pensamento, 2008.
ELIADE, Mircea. Mito e Realidade. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1972.
_______________.O sagrado e o profano: a essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
GUÉNON, René. L´Homme et son devenir selon lê Vêdânta. Paris: Ed. Traditionelles, 1976.
______________ Os Símbolos da Ciência Sagrada. São Paulo: Ed. Pensamento, 1993.
SHAKER, Arthur. Buddhismo e Christianismo. Esteios e Caminhos. Petrópolis: Vozes, 1999. ______________ A travessia buddhista da vida e da morte. Introdução a uma Antropologia Espiritual. Rio de Janeiro: Gryphus, 2003.
______________ O lugar do Homem nas doutrinas tradicionais. Revista UNICLAR, ano IX, no. 1. São Paulo: Faculdades Integradas Claretianas, nov. 2007, p. 37-48.
STODDART, William. Outline of Buddhism. Oakton: The Foundation for Traditional Studies, 1998.
YOGAVACARA RAHULA, Bhikkhu. Superando a Ilusão do Eu. Um Guia de Meditação Vipassanā. São Paulo: Edições Casa de Dharma, 2006. www.casadedharma.org

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